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Revista Exame, 26/04/06
Como lucrar com a base
da pirâmide
Especialista diz que
as empresas brasileiras que olharem para os consumidores
mais pobres podem virar multinacionais de sucesso
Por Denise Dweck
Professor da Universidade Cornell e especialista em
desenvolvimento sustentável, Stuart Hart é
co-autor de um dos primeiros artigos do guru C.K. Prahalad
sobre a riqueza na base da pirâmide. Em seu último
livro, O Capitalismo na Encruzilhada, recém-lançado
no Brasil, Hart diz que as empresas não terão
futuro se não incluírem a população
mais pobre entre seus consumidores.
Por que as empresas precisam olhar para a base da pirâmide?
Hoje, as empresas atendem 1 bilhão de pessoas,
o topo da pirâmide mundial. Sobra um mercado enorme
de 4,5 bilhões de clientes que não são
atendidos. A falta de atenção acaba provocando
um sentimento crescente de revolta contra a globalização
e o capitalismo.
Mas dá para ter lucro vendendo para os mais
pobres?
Os negócios voltados para a base não
têm necessariamente de produzir margens pequenas.
Muitas empresas viram que, com imaginação,
é possível fazer modelos voltados para
os pobres. Geralmente, devem ter produtos que ajudem
as pessoas a sair dessa faixa de renda. Algo, por exemplo,
como um sistema hidráulico que permita que as
pessoas não tenham de andar um dia inteiro para
buscar água. Coisas que façam diferença
material na vida das pessoas.
Quase 30% da população brasileira vive
com menos de 1 dólar ao dia. Como vão
consumir?
O princípio é oferecer produtos que
façam crescer a renda dessas pessoas. Isso permite
que consumam outros bens. Um bom exemplo é o
caso da telefonia móvel rural, que amplia o acesso
à internet. O acesso à chamada telefônica
representa poupança de até 10% na renda
domiciliar de um camponês, já que ele passa
a ter mais informação sobre os preços
de produtos rurais para vendê-los e economiza
deixando de fazer viagens até o centro da cidade.
O Brasil tem um projeto social, o Bolsa-Família,
que garante renda às famílias pobres que
mantêm filhos na escola. Essa idéia faz
sentido?
Trata-se de uma política de bem-estar social.
Não me oponho. Mas nada garante que as pessoas
usarão esse dinheiro para se auto-sustentarem.
Imaginamos algo diferente. Nossa idéia é
um modelo de negócio cuja premissa é a
criação de empreendimentos.
O que as empresas brasileiras podem fazer para lucrar
com os mais pobres?
Elas têm oportunidades enormes se deixarem de
competir com as multinacionais americanas, européias
e japonesas pelo topo da pirâmide. Afinal, elas
conhecem muito melhor o mercado popular, pois já
estão nele, falam a língua, conhecem o
meio. Elas têm de explorar isso. Para se tornar
competitivas internacionalmente, terão de aprender
como atender à base da pirâmide de forma
criativa e depois levar esse conhecimento para o mundo.
Ou seja, elas poderão tornar-se multinacionais?
Sim. É da base da pirâmide que virão
as multinacionais de amanhã. Estamos nos primeiros
estágios das multinacionais da próxima
geração. Os empresários brasileiros
precisam parar de tentar copiar os americanos. Não
vão ganhar esse jogo. Se olharem para os mais
pobres, as empresas brasileiras podem definir um novo
jogo que os americanos não sabem jogar.
As chamadas empresas de baixo custo, como Easy Jet
e Ryanair, são exemplos dessa nova onda?
Elas são interessantes e criativas, mas atendem
ao meio da pirâmide, e não à base.
Mas são exemplos válidos para verificarmos
a forma como criaram um novo modelo de negócios,
que não se resume a cortar custos.
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